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A IA está consumindo mais energia do que você imagina — e isso muda tudo

Toda vez que você manda uma mensagem para um modelo de IA, em algum lugar do mundo um data center consome energia. Parece óbvio. Mas o que não é óbvio é a escala do que está acontecendo — e o que ela implica para negócios, infraestrutura e geopolítica.


A Agência Internacional de Energia (IEA) publicou em fevereiro de 2025 um relatório que me deixou com a cabeça girando. O consumo global de eletricidade cresceu 4,3% em 2024 — o ritmo mais acelerado dos últimos anos — e os data centers são um dos principais responsáveis por esse salto. A previsão é crescimento de quase 4% ao ano até 2027. Para dar dimensão: estamos adicionando ao mundo o equivalente ao consumo elétrico total do Japão a cada ano.


O número que ninguém estava esperando

Os data centers na China já consumiram mais de 100 TWh de eletricidade em 2024. E segundo o relatório Electricity 2025 da IEA, esse número pode dobrar até 2027. Só nos Estados Unidos, o setor de data centers é hoje um dos principais responsáveis pela revisão para cima da demanda elétrica — o equivalente a adicionar o consumo inteiro do estado da Califórnia à rede em apenas três anos.


Não é coincidência que as maiores empresas de tecnologia do mundo — Microsoft, Google, Amazon, Meta — estejam em uma corrida silenciosa para fechar contratos de energia de longo prazo com usinas nucleares e parques eólicos. Eles sabem o que está vindo.


Quem paga a conta da IA

Existe um paradoxo aqui que poucos estão discutindo abertamente. As empresas de IA estão vendendo eficiência — "faça mais com menos" — enquanto, nos bastidores, constroem a infraestrutura que mais consome energia na história da humanidade.


Um único prompt para um modelo grande de linguagem consome entre 10 e 100 vezes mais energia do que uma busca no Google. Multiplique isso por bilhões de interações por dia. O custo não some — ele só vai para outro lugar. E quem vai pagar, no fim, é o preço da eletricidade, a pegada de carbono das cidades e a disputa geopolítica por fontes de energia limpa.


A boa notícia — e aqui a IEA é honesta — é que fontes renováveis devem atender praticamente toda a demanda nova de eletricidade até 2027. O solar, por si só, vai responder por metade do crescimento global. Mas "praticamente" não é "completamente". E nas economias emergentes, incluindo o Brasil, o gap entre demanda por IA e capacidade de geração limpa ainda é enorme.


O que a maioria das empresas brasileiras está ignorando

Quando falo com líderes de empresas no Brasil sobre adoção de IA, o tema de infraestrutura energética raramente aparece. O debate ainda está no "qual ferramenta usar" ou "como treinar o time". Isso é necessário — mas insuficiente.


O Brasil tem uma vantagem competitiva absurda que ainda não foi traduzida em estratégia: uma matriz elétrica onde mais de 80% da energia já vem de fontes renováveis. Isso significa que um data center instalado aqui tem, estruturalmente, uma pegada de carbono muito menor do que um instalado nos EUA ou na Europa — onde ainda dependem pesado de gás e carvão para cobrir picos de demanda.


Mas essa vantagem está sendo desperdiçada. Enquanto países como Irlanda, Cingapura e Índia fecham acordos bilionários para atrair infraestrutura de IA com incentivos fiscais coordenados, o Brasil ainda discute regulação de data centers em comitês que se reúnem de dois em dois meses.


IA não é só software — é também concreto, fio e quilowatt

Tenho dito isso em palestra há um bom tempo: a corrida da IA não é apenas uma guerra de modelos e algoritmos. É também uma guerra de infraestrutura física. Chips, data centers, energia, refrigeração. Quem controla isso, controla o futuro.


O que me preocupa não é o consumo de energia em si. Preocupa que a maioria das empresas que está "adotando IA" está fazendo isso sem entender os custos reais — energéticos, financeiros, estratégicos — que estão por trás de cada API call que fazem. Elas estão terceirizando a inteligência sem entender a dependência que isso cria.


Toda conversa sobre estratégia de IA precisa incluir uma pergunta que ninguém faz na reunião de board: "onde essa energia vem, quanto custa de verdade e o que acontece se esse fornecedor decidir mudar as regras do jogo?"


A IA vai consumir cada vez mais energia. Isso é certo. A questão é saber se o seu negócio vai surfar essa onda — ou vai se afogar sem perceber que estava no mar.


Se você quer entender como preparar sua empresa para esse cenário — além da superfície dos chatbots e das ferramentas — é sobre isso que falo na minha palestra sobre IA. Estratégia real, com os pés no chão e a cabeça no futuro. Saiba mais em gustavocaetano.com.

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