Resposta direta

No domingo, 25 de outubro, a Polymarket dava cerca de 77% de chance de vitória para o Flávio Bolsonaro quando as urnas fecharam, e o Lula foi reeleito. Neste texto, eu comparo os preços do mercado ao longo do dia com as pesquisas e com o resultado do TSE. A minha leitura é que o mercado não sabia nada que as pesquisas não soubessem.

No domingo, 25 de outubro, a Polymarket dava cerca de 77% de chance de vitória para o Flávio Bolsonaro quando as urnas fecharam, e o Lula foi reeleito. Neste texto, eu comparo os preços do mercado ao longo do dia com as pesquisas e com o resultado do TSE. A minha leitura é que o mercado não sabia nada que as pesquisas não soubessem. Ele pegou uma vantagem de 1 a 2 pontos, que estava dentro da margem de erro, e transformou essa vantagem em quase 80% de chance de vitória.

Capa em estilo caderno moleskine explicando por que o mercado de previsão dava 77% de chance para quem perdeu a eleição de 2026, com uma urna, um medidor marcando 77% e três chamadas numeradas sobre o estudo NBER w35846

Às 17h, quem apostava na Polymarket pagava 77 centavos de dólar para receber 1 dólar se o Flávio fosse eleito. Às 21h08, o TSE declarou o Lula reeleito. Com 100% das seções apuradas, segundo os resultados oficiais do TSE, o Lula ficou com 51,8% e o Flávio com 48,2% dos votos válidos. A diferença foi de 3,6 pontos, cerca de 4,4 milhões de votos.

O estudo que diz que mercados de previsão não têm viés político

Eu quis escrever sobre isso por causa de um gráfico que a a16z publicou na sua série semanal de gráficos, com o título "No Apparent Political Bias In Prediction Markets" (sem viés político aparente nos mercados de previsão).

O gráfico vem do estudo Are Prediction Markets Politically Biased?, do Eric Zitzewitz, professor de Dartmouth, publicado pelo NBER, o instituto de pesquisa econômica dos EUA. A pergunta do estudo é simples: os mercados em que as pessoas apostam dinheiro em eleições puxam para a esquerda ou para a direita?

Ele olhou 9.642 preços em 216 datas de eleição, de 1880 a 2025, em mercados como Iowa, Intrade, PredictIt, Betfair e Kalshi. E não encontrou viés sistemático para nenhum dos lados. Um dia antes da eleição, os dados descartam um viés a favor da esquerda maior que uns 4,5 pontos e um viés a favor da direita maior que uns 3 pontos.

O estudo tem dois limites que importam para o caso brasileiro:

  1. É uma versão preliminar, sem revisão de outros pesquisadores, e a Polymarket ainda não está nos dados. O autor diz que só vai incluí-la depois das eleições de meio de mandato dos EUA.
  2. O Brasil, pelo que dá para ver no paper, não está na amostra. Partidos de países fora dos EUA, da Europa e da Commonwealth não foram classificados nesta versão.

Ou seja, a eleição de domingo foi um teste com um caso que o estudo não viu.

O que a Polymarket previa no dia da eleição

Às 14h30 de domingo, o Flávio tinha 81,5% de chance na Polymarket. Às 16h59, tinha 76,8%. O Lula subiu 7 pontos em 24 horas, mas fechou como azarão, com cerca de 1 chance em 4.

No mercado de margem de vitória, que movimentou cerca de US$ 7,6 milhões, a faixa mais provável era "Flávio vence por menos de 4 pontos", com 50,5%. A faixa que deu certo, "Lula vence por menos de 4 pontos", estava em 21,5%.

O que as pesquisas diziam

As últimas pesquisas, divulgadas no sábado, mostravam estes números em votos válidos:

  • Datafolha: Flávio 51%, Lula 49%, margem de erro de 2 pontos.
  • Quaest: Flávio 51%, Lula 49%, margem de erro de 2 pontos.
  • AtlasIntel: Flávio 50,8%, Lula 49,2%, margem de erro de 1 ponto.
  • BTG/Nexus: Flávio 50,5%, Lula 49,5%.

Todas chamavam a disputa de empate técnico, com o Flávio na frente. O Flávio terminou com 48,2%, abaixo do que todas mostravam e fora da margem de erro de cada uma.

O ponto que mais me chamou atenção está na comparação entre as duas coisas. As pesquisas mostravam um empate, e o mercado leu esse empate como uma vitória quase certa. Pra mim, foi confiança demais em cima de uma disputa que estava empatada.

Como a Polymarket se saiu nos estados

Nos seis governos estaduais que tiveram segundo turno, a Polymarket acertou cinco. Errou no Rio Grande do Norte: dava 67,5% para o Allyson Bezerra (União), e o Cadu de Lula (PT) ganhou com 50,8%. A Quaest também tinha o Allyson na frente, por 51 a 49.

Em Minas, o mercado dava cerca de 96% de chance de o Flávio ficar em primeiro no estado. Com 100% das seções apuradas, o Lula terminou com 50,4%. Era um mercado pequeno, de uns US$ 41 mil.

Então os mercados de previsão têm viés político?

Os três erros de domingo foram para o mesmo lado: o mercado deu mais chance do que devia ao candidato que disputava contra o PT.

O gráfico da a16z tem uma linha, a das eleições fora dos EUA, com sinal negativo. Isso sugere que, fora dos EUA, o mercado superestima a direita. Mas esse número não é estatisticamente significativo, ou seja, pode ser só ruído.

Eu não vou tirar essa conclusão de um domingo. O próprio Zitzewitz explica que o tamanho real da amostra é o número de datas de eleição, e não o número de mercados. Domingo foi uma data só. E os três erros têm a mesma origem: as pesquisas erraram todas para o mesmo lado, e o mercado foi atrás delas.

Também vale lembrar que um evento com 1 chance em 4 acontece, em média, 1 vez a cada 4. Para saber se um mercado está calibrado, é preciso olhar centenas de eleições, que é justamente o que o paper fez.

O que eu levo disso para decisões de negócio

Quando alguém me mostra "80% de chance", eu faço duas perguntas. Esses 80% foram calculados em cima de quê? E o que acontece nos outros 20%?

Nesta eleição, os 80% vinham de uma diferença de 2 pontos nas pesquisas, que estava dentro da margem de erro. Quem leu esse número como certeza levou um susto na noite de domingo.

As mesmas duas perguntas servem para qualquer previsão dentro de uma empresa. Se um forecast de vendas diz que um contrato tem 80% de chance de fechar, vale perguntar o que sustenta esse número e qual é o plano se ele não fechar.

Perguntas frequentes

A Polymarket errou a eleição de 2026?

O favorito da Polymarket perdeu. No fechamento das urnas, o mercado dava cerca de 77% de chance ao Flávio Bolsonaro, e o Lula venceu com 51,8% dos votos válidos, com 100% das seções apuradas. Um favorito com 77% perder não prova, sozinho, que o mercado é ruim, mas mostra que a probabilidade estava alta demais para uma disputa empatada nas pesquisas.

O estudo do NBER incluiu o Brasil e a Polymarket?

Não. A versão preliminar do estudo de Eric Zitzewitz (NBER w35846) não inclui a Polymarket, e o Brasil, pelo que dá para ver no paper, não está na amostra de viés político, porque partidos de países fora dos EUA, da Europa e da Commonwealth não foram classificados.

Mercado de previsão é melhor que pesquisa eleitoral?

Nesta eleição, o mercado seguiu as pesquisas e errou para o mesmo lado. O estudo do NBER indica que, em mais de 200 datas de eleição, os mercados não mostraram viés político sistemático. Uma eleição só não é suficiente para dizer qual dos dois é melhor.

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