Um projeto zumbi é uma iniciativa de tecnologia que continua consumindo dinheiro todo mês, mas que já não entrega resultado e que ninguém teve coragem de desligar. Com a inteligência artificial isso ficou mais comum, porque o custo vem em assinaturas, licenças e consumo de uso que crescem sem chamar atenção. A forma mais simples de evitar que esses projetos entrem no orçamento de 2027 é aplicar uma regra de 90 dias: todo projeto precisa ter um número que deve mudar e um prazo para isso acontecer.
Um projeto zumbi é uma iniciativa de tecnologia que continua consumindo dinheiro todo mês, mas que já não entrega resultado e que ninguém teve coragem de desligar. Com a inteligência artificial isso ficou mais comum, porque o custo vem em assinaturas, licenças e consumo de uso que crescem sem chamar atenção. A forma mais simples de evitar que esses projetos entrem no orçamento de 2027 é aplicar uma regra de 90 dias: todo projeto precisa ter um número que deve mudar e um prazo para isso acontecer. Se o número não mudou e não há sinal claro de melhora, o projeto é encerrado.

Eu participo de conselhos de empresas, e outubro e novembro são os meses em que o orçamento do ano seguinte chega para aprovação. A linha de tecnologia é onde esse problema costuma se esconder, porque ela junta pilotos, assinaturas e ferramentas contratadas em momentos diferentes, muitas vezes sem um dono claro e sem uma meta escrita. A pergunta que mais ajuda nessa hora é simples: o que cada um desses itens entregou para o negócio?
Como reconhecer um projeto zumbi
Um projeto zumbi raramente é um fracasso declarado. Ele parece vivo. Tem gente usando, tem reunião de acompanhamento e tem fatura chegando. O problema é que ninguém consegue dizer qual número da empresa ele melhorou.
Estes são os sinais mais comuns:
- O projeto não tem um dono com nome e sobrenome que responda pelo resultado.
- Ninguém escreveu, no começo, qual indicador deveria mudar (tempo de atendimento, custo por pedido, taxa de conversão, horas de retrabalho).
- O relatório de acompanhamento mostra uso, como número de acessos ou de mensagens, e não mostra efeito no negócio.
- O piloto foi prorrogado mais de uma vez com a justificativa de que "ainda está amadurecendo".
- O custo está espalhado em várias contas pequenas e ninguém sabe o total.
Se um projeto tem três ou mais desses sinais, ele precisa passar pela regra dos 90 dias antes de entrar no orçamento de 2027.
O que as pesquisas do Gartner mostram sobre isso
O Gartner divulgou nesta semana, no seu evento anual para executivos de tecnologia em Orlando, uma pesquisa com 2.002 CIOs e executivos de tecnologia feita entre maio e julho de 2026. Os números explicam por que esse assunto chegou ao conselho:
- Só 13% dos CIOs dizem que a empresa já obteve valor significativo ou transformador com inteligência artificial.
- A chance de um caso de uso dar certo continua em cerca de 1 em 5.
- 58% sentem mais pressão para entregar redução de custo com a tecnologia, mas 51% esperam que ela aumente o custo total.
- As empresas que têm uma regra para impedir que um piloto fraco vá para produção têm 2,3 vezes mais chance de estar entre as de melhor desempenho. As que têm uma regra para abandonar o que já está em produção e entrega pouco têm 2,6 vezes mais chance. Mesmo assim, só 31% e 17% dos CIOs dizem ter essas regras.
Do lado dos presidentes, outra pesquisa do Gartner, com 203 CEOs e executivos seniores, mostrou que 44% têm dificuldade de demonstrar o retorno financeiro da inteligência artificial, e 75% pretendem aumentar o investimento em tecnologia.
A leitura que faço desses números é simples. O dinheiro vai continuar indo para essa área em 2027. O que separa as empresas que vão colher resultado das que vão só gastar mais é ter uma regra clara para parar o que não funciona.
A regra dos 90 dias: três coisas escritas antes de começar
A prévia da agenda dos CIOs para 2027 do Gartner, que li esta semana, recomenda que todo investimento em inteligência artificial seja ancorado numa prova de valor de 90 dias. Se o valor esperado não aparecer em três meses e não houver sinal claro de melhora, a iniciativa deve ser encerrada.
Na prática, isso significa escrever três coisas antes de aprovar qualquer projeto:
- O número que precisa mudar. Por exemplo, reduzir o tempo médio de resposta ao cliente de 6 horas para 2 horas. Precisa ser um indicador que a empresa já mede hoje.
- O prazo. Noventa dias a partir do início do uso real, e não da assinatura do contrato.
- O que acontece se o número não mudar. Escrever antes, quando ninguém ainda está apegado ao projeto, evita a conversa difícil depois.
Alguns projetos demoram mais de 90 dias para mostrar ganho financeiro, como os que organizam dados da empresa. Nesses casos, a regra continua valendo, mas o que precisa aparecer no prazo é um sinal intermediário combinado antes, como a porcentagem dos dados que já está limpa e pronta para uso.
Como fazer a faxina antes de fechar o orçamento de 2027
Dá para fazer essa revisão em poucas semanas, antes da reunião de aprovação do orçamento. Este é o roteiro que eu sugiro:
- Faça o inventário. Liste todos os projetos, pilotos, assinaturas e ferramentas de inteligência artificial pagos pela empresa, incluindo os que as áreas contrataram com cartão corporativo, fora da TI.
- Some o custo real de cada um. Inclua licença, consumo de uso, horas da equipe interna e fornecedores envolvidos.
- Dê um dono a cada item. Projeto sem dono é o primeiro candidato a ser desligado.
- Pergunte qual número mudou. Compare o indicador de antes com o de agora. Uso não conta como resultado.
- Decida entre manter, ajustar ou desligar. Manter quando o número mudou. Ajustar quando há sinal claro de melhora, com um novo prazo de 90 dias e uma meta escrita. Desligar quando não há número nem sinal.
- Leve para o orçamento só o que sobreviveu. A verba liberada pelos projetos desligados pode ir para os poucos que já provaram valor.
O mais difícil dessa lista é o passo 5, porque quase todo projeto tem alguém que acredita nele. Por isso a regra precisa ser combinada antes, de preferência aprovada pela diretoria ou pelo conselho, para que a decisão não pareça pessoal.
Depois da faxina, dê às áreas um cardápio de ferramentas aprovadas
Desligar projetos resolve o passado. Para que os zumbis não voltem em 2027, a mesma prévia do Gartner sugere outra prática: oferecer às áreas um cardápio curto de ferramentas de inteligência artificial já aprovadas pela empresa.
A lógica é dar liberdade dentro de limites. As áreas continuam criando suas próprias soluções, sem esperar meses pela TI. A empresa, por sua vez, negocia melhor com os fornecedores, porque compra em volume, e consegue ver quanto cada área está gastando. O que estiver fora do cardápio passa por uma avaliação rápida, e não por uma proibição.
Esse cardápio precisa de um dono e de revisão frequente. Se ele ficar desatualizado, as pessoas voltam a contratar ferramentas por fora, e o custo some de novo da vista de quem aprova o orçamento.
Perguntas para levar à reunião de orçamento
Se você é CEO, CFO, sócio ou conselheiro e vai aprovar o orçamento de 2027 nas próximas semanas, leve estas perguntas:
- Quantos projetos e ferramentas de inteligência artificial a empresa paga hoje, e quanto eles custam somados?
- Cada um deles tem um dono que responde pelo resultado?
- Qual indicador do negócio cada projeto melhorou desde que começou?
- Quais projetos foram prorrogados mais de uma vez sem resultado?
- A empresa tem uma regra escrita para encerrar pilotos e projetos que não entregam?
- Quanto do aumento da verba de tecnologia em 2027 vai para projetos novos, e quanto vai para manter os que já existem?
- Existe uma lista de ferramentas aprovadas para as áreas, ou cada uma contrata a sua?
Se essas respostas vierem rápidas e com números, a empresa está no grupo pequeno que já tem disciplina sobre o tema. Se ninguém souber responder, a primeira decisão de 2027 é criar a regra, antes de aprovar qualquer verba nova.
Perguntas frequentes
O que é IA zumbi?
É o nome usado pelo Gartner para projetos de inteligência artificial que seguem consumindo orçamento, licenças e infraestrutura sem gerar valor para o negócio. Eles não foram encerrados porque ninguém definiu, no começo, o que contaria como sucesso ou como fracasso.
90 dias não é pouco tempo para avaliar um projeto de inteligência artificial?
Para ganho financeiro completo, às vezes é. Por isso a regra pede o resultado ou um sinal claro de melhora no prazo. Se o projeto precisa de mais tempo, o sinal intermediário deve ser combinado antes do início, e não inventado depois para justificar a prorrogação.
Quem deve decidir o que é desligado?
O dono de cada projeto apresenta os números, e a diretoria decide com base na regra combinada. Em empresas com conselho, vale levar a regra para aprovação do conselho, porque isso protege a decisão de pressões internas.
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