Quando eu falo de IA em palestra, as perguntas quase sempre são sobre os modelos. Eu acho que a peça mais importante dessa história é outra: o GitHub. É lá que o código, os documentos e o histórico de tudo o que um time constrói ficam guardados.
Quando eu falo de IA em palestra, as perguntas quase sempre são sobre os modelos. Eu acho que a peça mais importante dessa história é outra: o GitHub. É lá que o código, os documentos e o histórico de tudo o que um time constrói ficam guardados. E, como o Codex, o Claude Code, o Cursor e o próprio Copilot trabalham em cima do mesmo repositório, quem guarda o trabalho no GitHub pode trocar de ferramenta amanhã sem perder nada. Para mim, essa é a melhor proteção que uma empresa tem hoje contra ficar presa a um fornecedor só. E eu levo isso tão a sério que até o meu second brain, as minhas notas pessoais, mora num repositório privado.

O que é o GitHub, em uma frase
O GitHub é um site onde pessoas e empresas guardam projetos num repositório, que é uma pasta com histórico. Cada mudança fica registrada: quem mudou, o quê e quando. Dá para voltar atrás, comparar versões e trabalhar em paralelo sem um atrapalhar o outro. Ele nasceu para programadores, mas funciona para qualquer coisa feita de arquivos de texto, inclusive anotações.
Os números mostram onde a construção está acontecendo
Eu não costumo gostar de "tudo está crescendo". Mas aqui os dados são do próprio GitHub e vale olhar com calma.
Segundo o Octoverse 2025, relatório anual do GitHub que cobre de setembro de 2024 a agosto de 2025:
- Mais de 36 milhões de desenvolvedores entraram no GitHub em um ano. Dá mais de um por segundo, e a plataforma passou de 180 milhões de pessoas.
- Mais de 1,1 milhão de repositórios públicos usam algum kit de desenvolvimento de modelos de linguagem, e 693.867 deles foram criados nos últimos 12 meses, um crescimento de 178% sobre o ano anterior.
- Os repositórios ligados a IA passaram de 4,3 milhões, quase o dobro em menos de dois anos.
- Seis dos dez repositórios que mais cresceram eram projetos de infraestrutura de IA, e o openai/codex aparece entre os projetos com mais contribuidores.
- Março de 2025 teve o maior número de estreantes no open source da história do GitHub: 255 mil pessoas fazendo a primeira contribuição.
O Brasil aparece bem nessa foto. O mesmo relatório diz que Índia, Brasil e Indonésia mais que quadruplicaram o número de desenvolvedores entre 2020 e 2025, e projeta 19,6 milhões de desenvolvedores brasileiros em 2030.
E isso não começou agora. No Octoverse 2024, o GitHub já registrava 98% mais projetos de IA generativa e 59% mais contribuições a esses projetos em relação ao ano anterior.
Por que isso importa para quem não programa? Porque o open source, o software de código aberto que qualquer um pode usar e melhorar, é a base de quase tudo que as empresas compram. Um estudo da Harvard Business School, de Manuel Hoffmann, Frank Nagle e Yanuo Zhou, estimou em 8,8 trilhões de dólares o valor do open source amplamente usado para quem o consome, e calculou que as empresas gastariam 3,5 vezes mais com software se ele não existisse. O lugar onde esse software é feito, discutido e corrigido, na maior parte, é o GitHub.
O repositório é a saída contra o lock-in
Lock-in é quando você fica preso a um fornecedor porque sair custa caro demais. Seus dados estão no formato dele, seu time só sabe usar a interface dele e o histórico do projeto não sai de lá.
Com agentes de código, esse risco ficou maior, porque aparece uma ferramenta nova por mês. Hoje um time aposta numa, daqui a seis meses outra está melhor. A pergunta certa não é "qual ferramenta escolher". É "onde o trabalho fica guardado quando eu trocar de ferramenta".
As principais ferramentas de agentes trabalham em cima do mesmo repositório do GitHub:
- O Codex, da OpenAI, conecta no seu repositório, executa tarefas na nuvem e devolve o resultado como um pedido de mudança (o pull request, que é a proposta de alteração que alguém revisa antes de entrar).
- O Claude Code, da Anthropic, pode ser chamado escrevendo @claude num comentário dentro do próprio GitHub, e ele analisa, implementa e envia a mudança.
- Os agentes na nuvem do Cursor clonam o repositório, trabalham num ramo separado e abrem o pedido de mudança. Dá para disparar pelo computador, pelo navegador, pelo celular ou por um comentário no GitHub.
- O próprio GitHub Copilot deixa escolher modelos de empresas diferentes, como OpenAI, Anthropic, Google e xAI, dentro da mesma ferramenta.
- No anúncio do Agent HQ, em outubro de 2025, o GitHub disse que agentes da Anthropic, da OpenAI, do Google, da Cognition e da xAI ficariam disponíveis dentro do GitHub ao longo dos meses seguintes.
No meu dia a dia é exatamente assim. O assistente que eu uso, o Grok Bot, dispara agentes que trabalham nos meus repositórios. Se um dia eu quiser pedir a mesma tarefa para o Codex ou para o Claude Code, o código é o mesmo, o histórico é o mesmo e as regras do projeto, que ficam escritas em arquivos dentro do repositório, também. Eu troco a ferramenta, não o trabalho. E faço isso de qualquer lugar, inclusive do celular.
A regra que eu uso para explicar isso para diretoria tem três camadas:
- O repositório guarda. Código, documentos, regras e histórico ficam num lugar que é seu.
- O agente trabalha. Codex, Claude Code, Cursor ou Copilot entram, fazem a tarefa e saem.
- O modelo é trocável. O modelo de linguagem por trás do agente muda conforme preço e qualidade.
Se a sua empresa inverteu essa ordem e guarda o trabalho dentro da ferramenta, ela está presa, mesmo que ainda não tenha percebido.
Até o meu second brain mora num repositório privado
Second brain é um sistema para guardar o que você aprende, decide e pensa, de um jeito que dá para achar depois. Eu já contei como montei o meu e o que é um second brain. Aqui quero falar de onde ele fica guardado.
As minhas notas são arquivos de texto simples, em Markdown, sincronizados com um repositório privado no GitHub. O Obsidian, um dos aplicativos de notas mais usados para isso, lista o Git como uma das formas oficiais de sincronizar as notas.
Eu faço assim por um motivo só: independência. O aplicativo de notas pode mudar. O modelo de linguagem que lê as minhas notas pode mudar. O assistente que conversa comigo pode mudar. As notas continuam no mesmo lugar, num formato que qualquer ferramenta lê. Se amanhã aparecer um assistente melhor, eu aponto para o mesmo repositório e pronto.
E isso não é só coisa minha. O mesmo Octoverse 2025 mostra que 81,5% das contribuições no GitHub aconteceram em repositórios privados, e que os privados cresceram 33% em um ano, contra 19% dos públicos. As empresas já estão usando o GitHub como cofre do trabalho, não só como vitrine.
Um cuidado honesto: sincronizar pelo Git no celular ainda é chato. A documentação do plugin Git do Obsidian avisa que a versão para celular é instável. No computador funciona muito bem.
Como aplicar isso na sua empresa esta semana
- Pergunte onde o trabalho mora. Liste as ferramentas de agentes que o time usa e veja se o resultado fica num repositório da empresa ou dentro da ferramenta.
- Escreva as regras no repositório. Padrões, instruções e decisões em arquivos de texto dentro do projeto, para que qualquer agente leia.
- Teste dois agentes na mesma tarefa. Peça a mesma melhoria para dois agentes diferentes no mesmo repositório e compare os pedidos de mudança. Isso mostra, na prática, que você pode trocar.
- Faça o mesmo com o conhecimento. Documentos e notas importantes da liderança em texto simples, num repositório privado, com acesso controlado.
Perguntas frequentes
Preciso saber programar para usar o GitHub assim?
Não. Para notas e documentos, basta um aplicativo como o Obsidian com sincronização pelo Git. Para código, os agentes fazem a parte técnica, e o seu papel é revisar e aprovar o pedido de mudança.
Repositório privado no GitHub é seguro para informação da empresa?
Ele tem controle de acesso e registra quem mexeu em quê. Mas segurança depende de como a empresa configura permissões, autenticação e o que entra lá. Senhas e chaves nunca devem ir para o repositório.
Usar o GitHub não é trocar uma dependência por outra?
Em parte, sim. A diferença é que o Git, a tecnologia por baixo, é aberta: o repositório inteiro pode ser copiado para outro serviço com o histórico completo. Isso é bem diferente de depender do formato fechado de uma ferramenta.
Próximo passo
Se a sua empresa está escolhendo ferramentas de agentes e quer fazer isso sem ficar presa a um fornecedor, é exatamente o tipo de decisão que eu acompanho no advisory. Se o desafio é colocar o time para trabalhar desse jeito na prática, a imersão é o formato de workshop. Para alinhar a liderança num evento, veja a palestra sobre IA. E se você ainda não sabe em que estágio a empresa está, comece pelo Assessment de Maturidade Agentic. Se estiver em dúvida entre os formatos, este texto ajuda a escolher, ou me mande o contexto.
Quer transformar esta ideia em uma palestra, workshop ou advisory conectado ao desafio da sua empresa?